Esse é seu novo lar - parte 1
O cheiro forte da mata envolvia o grupo de lobos que avançava, suas patas afundando o solo macio e úmido da floresta abrindo caminho para seu alfa. No centro daquele alvoroço, Alaric avançava em forma humana com passos largos e decididos, os músculos do corpo nu rígidos e tensos pelo esforço de manter sob controle a garota que se debatia em seu ombro como uma boneca furiosa.
“Me solta! Eu disse pra me soltar, seu animal!”, gritou Eulália, batendo com os punhos contra as costas nuas dele. “Não é porque eu disse que viria, que você deve me carregar dessa forma!”
Alguns minutos atrás, no momento em que Eulalia disse que iria com os lobos, o alfa não perdeu tempo. A confirmação dela foi uma mera formalidade claro, afinal, ele a levaria de qualquer jeito. Alaric a colocou sobre seus ombros como um saco de batatas, então começou a caminhar sem que ela sequer se despedisse dos seus, afinal, isso não importava para ele.
Agora estava se perguntando se, caso tivesse deixado-a se despedir, ela gritaria menos…
Alaric soltou um rosnado grave, mas não respondeu. Os olhos fixos no caminho à frente, desviando de galhos baixos e raízes que se sobressaiam da terra enquanto os uivos dos lobos que seguiam a frente dele anunciavam que finalmente os ventos estavam soprando ao seu favor. A matilha seguia em êxtase, celebrando como se o próprio destino tivesse sorrindo para eles. O alfa, o mais poderoso lobo de Valtheria, finalmente havia encontrado sua companheira, um ano antes de sua maldição ser eterna.
Havia uma chance, afinal!
Eulália, no entanto, não compartilhava da mesma animação. As mãos agora agarravam os ombros de Alaric, tentando, em vão, forçar alguma estabilidade na estranha posição em que estava. A pele dele estava quente sob seus dedos, e ela sentia cada músculo do homem se mover sob seu toque com precisão animalesca.
Nunca havia visto um homem nu, sequer havia encostado num homem daquele jeito e tudo era tão constrangedor! Aquilo a irritava ainda mais.
“Você está pelado! Isso é indecente! Não pode simplesmente andar nu por aí como se fosse normal!” gritou novamente, corando fortemente ao se dar conta da proximidade nada apropriada entre seu rosto e… da firme bunda do alfa.
“Pelos deuses, isso é um absurdo!” continuou, estremecendo. “Minha cara está literalmente na sua… na sua... bunda! Isso é absurdo! Me coloque no chão! Me coloque no chão agora!”
Alaric bufou, sem diminuir o ritmo da corrida.
“Você fala demais”, respondeu ele, a voz grave como um trovão abafado.
“E você é um bruto sem nenhuma educação!” retrucou ela, empurrando-o com força. “Me ponha no chão! Já!”
“Se eu te colocar no chão, vai fugir como uma criança birrenta”, o tom de Alaric era irritado, quase furioso e parecia dizer o obvio para a garota que ainda se debatia. “E, sinceramente, estou sem paciência pra suas crises de histeria humana.”
“Crises? Você me obrigou a vir com você, ameaçou minha vila! Isso aqui não é uma caminhada no bosque, seu… seu maluco! Você é doente!”
Os lobos que os acompanhavam riram, em uivos curtos, como se entendessem cada palavra do embate que acontecia entre os dois. O som da matilha correndo, dos galhos partindo sob as patas, e o cheiro selvagem da floresta formavam um cenário que mais parecia retirado de um pesadelo para Eulália, mas para o alfa que a carregava, era como o inicio de um sonho, um sonho que o libertaria de sua maldição e quem sabe devolveria o coração ao seu peito.
Após longos minutos de corrida, a paisagem começou a mudar. A floresta tornava-se menos densa, dando lugar a uma clareira ampla, onde erguiam-se as construções da alcateia. Eram casas de pedra com telhados escuros, espalhadas ao redor de uma imensa construção central: o castelo do alfa, uma fortaleza esculpida na rocha, adornada por estandartes negros com símbolos antigos da linhagem de Alaric.
Aquele era o lar das lendas, o local que os humanos acreditavam que não existia, se erguendo a vista de Eulália como uma assombração.
Os lobos diminuíram a velocidade conforme se aproximavam da entrada da vila, um silêncio respeitoso tomou conta do grupo ao passarem pelos portões altos. Eulália levantou o rosto, os olhos arregalados diante da imponência da fortaleza, nunca tinha visto nada como aquilo. Mesmo ofegante e suada, não conseguiu evitar um arrepio de admiração, embora fosse um arrepio banhado de medo.
“Pelos deuses… onde eu estou?” murmurou, sem esperar resposta.
Alaric a carregou até o centro da praça de pedras polidas que dava acesso ao castelo. Alguns membros da alcateia saíam das casas, parando suas atividades ao ver o alfa chegar com uma humana jogada como um saco de farinha no ombro. Olhares curiosos, surpresos, até escandalizados se voltaram para ela.
“Por favor… me coloca no chão. Estão todos olhando!” sussurrou Eulália, aflita, tentando esconder o rosto com as mãos.
“Que olhem”, respondeu Alaric, impassível. “Eles precisam entender quem você é.”
“Eu não sou nada sua!” a garota retrucou, erguendo o rosto com os olhos faiscando de indignação. “Sou uma mulher livre! Não um prêmio de caça!”
Alaric parou diante da escadaria do castelo, finalmente a colocando no chão, mas com a mesma delicadeza com que se larga um saco de grãos. Eulália se desequilibrou, tropeçando para trás, caindo com a bunda no chão, sentada diante do alfa, os olhos furiosos e o rosto em chamas. Mesmo assim, com toda a coragem que ainda lhe restava, levantou a cabeça e o encarou.
Alaric, nu, altivo, tinha a pele coberta por pequenas cicatrizes e, em seu peito, a maior delas que o lembrava todos os dias do que era e do que procurava. Eulalia via bem no meio de seu peito, uma cicatriz circular com partes levemente saltadas da pele, veias negras que se espalhavam levemente por seu peito, mesclando-se a pele levemente bronzeada até sumirem.
Ao redor deles, um grupo de pessoas se reuniam, lobos da alcateia de Alaric. Havia mulheres jovens que olhavam para Eulalia com curiosidade homens que comemoravam a vitoria do alfa e o fato dele finalmente encontrar sua companheira, aquele era um dia de festa para todos ali, ou quase todos.
