3 - Belinda
Quando acordei, logo depois do meio-dia, coisa que nunca havia feito, percebi que Jessye já tinha se levantado. Conhecendo minha amiga como conheço, não duvido que ela estivesse na cozinha, devorando um dos pães doces que só a Sônia sabe fazer. Juro que não sei como Jessye ainda não virou uma Orca. Ela come tudo e não realiza um exercício, como isso é possível? Se faço isso, na semana seguinte estarei usando tamanho GG.
Ainda brigando com o sono, arrastei-me para a cozinha. Odiava acordar tarde, odiava mais ainda tomar café sozinha. Quando Jessye resolvia vir dormir comigo, sempre fazíamos isso juntas. Era como se fôssemos irmãs de sangue, claro que não estou falando que Ivy também não seja, mas quem tem duas amigas totalmente diferentes, sempre tem uma que você se apega mais.
— Bom dia, Sônia, onde está a Jessye? — Perguntei sentando a mesa.
— Saiu há dez minutos.
— Pensei que ficaria o dia todo comigo.
— Ela disse que iria em casa trocar de roupa e fazer outra coisa que agora não me lembro, mas que voltaria mais tarde para ir ao cinema com você.
— Entendi. O que temos para o café, se é que sobrou algo, já que Jessye come por nós duas.
— Realmente, sua amiga é um dragão quando se fala de comida. — Sônia riu. — Mas preparei suas panquecas preferidas, queijo e presunto.
— Hum! Ai que delícia! — falei saindo da mesa e indo para a bancada da pia, onde já havia uma bandeja recheada. — Senti tanta saudade delas.
— Então coma tudo.
— Não posso. Depois terei que correr horrores para perder todas as calorias que vem com elas.
— Você e sua mania de que engordará. Garota, você é um palito.
— Agora sou por que me esforço bastante. Não posso relaxar.
Sônia revira os olhos e volta para o fogão.
— Nunca entenderei a cabeça dessa nova geração.
— É melhor desistir mesmo, somos complexos demais para sermos entendidos.
— Percebi.
Após tomar café, voltei para o meu quarto e me joguei novamente na cama. Como meus pais já haviam voltado para sua rotina, eu estava no escanteio de novo. Não que eu achasse isso ruim, até gosto, porque meus pais sabem ser bem grudentos quando querem, ainda mais por que sou filha única. Uma pena que minha mãe não conseguiu engravidar de novo. Penso que tudo seria mais simples e legal se eles tivessem outro filho a quem pudessem mimar.
Peguei meu celular e comecei a passear pelas redes sociais, queria estar atualizada quando voltasse para a faculdade. Sem muitas novidades, só pessoas fazendo desabafos, como se a rede fosse alguma espécie de psicólogo.
Dei uma olhada rápida nas páginas das minhas amigas só para saber o que estava rolando, só por pura curiosidade de jornalista, esta que ainda está de férias.
Encontrei uma postagem de Jessye comentando a festa de Kadu. Ao que tudo parecia, o playboy estava de volta com sua rotina. Fiquei dois meses longe e quando volto, não encontro nada de diferente nele.
E, porque estou me incomodando com o que faz ou deixa de fazer?
Agrrss…
Jogo o celular em cima da cama e ficou olhando para o teto. O sono decidiu que me odeia, e o meu corpo sente que precisa gastar energia, mas não estou com mínima vontade de sair do conforto da minha cama.
Vou até a minha mesa de estudo e busco meu notebook. Farei algumas releituras das minhas matérias para passar o tempo.
A droga do computador demora a ligar, está mais lento do que tartaruga correndo. Frustrada, faço uma das coisas que não gosto, mas que me acalma, coloco meu biquíni e vou para a piscina.
Não gosto de sol, por que sou branca como uma folha de papel e dez minutos no sol, soa como se eu tivesse abraçado o sol, mas ficar deitada em uma cadeira ouvindo o barulho do nada, me deixa calma, além do que, tenho uma visão privilegiada do mar.
Sônia me viu passando, mas não comentou nada. Tomei banho de protetor, coloquei meus óculos de sol e os meus fones de ouvido. Minha playlist estava lotada de músicas variadas, que ouvia conforme o meu humor. E hoje ele estava negro. Fechei os olhos e fiquei ouvindo a batida forte do Link Park. Segundos depois, sinto algo impedindo a passagem do sol. Abro os olhos para ver quem é.
— Nick?
— Oi Belinda.
— O que está fazendo aqui? Como entrou? — consegui perguntar no fim.
— Entrei pela porta, como sempre fiz. — ele riu. — Soube que você estava de volta no país e vim te ver.
Merda.
Ele tinha que aparecer aqui e logo hoje quando o humor está mais variável do que sorteio da mega cena. E ele está ainda mais bonito do que a última vez que o vi. O seu sorriso ainda é mais perfeito de todos.
— Você resolveu se isolar de todo mundo, o que houve? — Nick perguntou me tirando dos meus devaneios.
— Eu só estava querendo ficar um pouco sozinha…
— Por dois meses? Tentamos falar com você várias vezes. Enchemos sua caixa de email com mensagens.
— O que aconteceu de tão sério para o envio de tantos emails? — perguntei já sabendo o que ele responderia.
— Eu e Nanda resolvemos casar.
Ouvir da Jessye que os dois iriam se casar não foi tão impactante do que ouvir do próprio Nick. Pensei que esse tempo em que fiquei fora fosse me ajudar esquecer tudo. Eu gostava de Nanda, queria muito a felicidade dela, assim como a do Nick, mas eles não estavam facilitando em nada com a minha recuperação.
— Uau… Isso é… Bom…
— É maravilhoso! Nanda está com um pouco de medo devido ao meu pai, mas estamos conversando bastante sobre isso.
— E vocês não poderiam esperar até eu voltar para falar?
— Poderíamos, mas você foi tão prestativa com a Nanda enquanto eu estive fora, que queríamos que você fosse a primeira a saber.
— Entendo… — foi tudo o que consegui falar.
— Você parece estar em choque, não está feliz por nós?
— Feliz? É claro que estou… Eu só ainda não consigo acreditar, vocês estão juntos recentemente… E decidir assim tão rápido é… Loucura.
— Loucura é você esperar o tempo passar para ter certeza de que tomou a decisão certa. Eu sempre tive certeza do que eu queria. O momento em que pus os meus olhos na Nanda, eu sabia que encontrara a pessoa certa.
Quanto mais Nick falava, mais eu me sentia horrível. O tempo em que ficamos juntos, nem se quer contou pontos na sua tabela.
— Já entendi Nick… Então se casem e sejam felizes para sempre. — falei me levantando da cadeira de sol. — Foi só por isso que veio aqui?
Nick me olhou por alguns segundos, tentando entender minha reação.
— O que falei de errado?
Soltei um longo suspiro e depois olhei para Nick.
— Você não falou nada de errado, ok? Eu só estou em choque pela notícia. Desculpe-me se agir erradamente.
— Está tudo bem. Sei pode parecer muito cedo, mas eu Nanda estamos felizes e queremos compartilhar com nossos amigos.
O jeito de passar por isso, era sorrir e fingir estar tudo bem. Nick continuou a falar, mas eu me permiti sair da minha mente por alguns segundos a procura de um lugar vazio onde não houvesse nada ou ninguém que pudesse me encontrar.
— Belinda, você está me ouvindo?
— Perdão, o que estava falando mesmo? — perguntei quando voltei a realidade.
— Eu e Nanda ficáramos imensamente felizes se você aceitasse ser uma das madrinhas do nosso casamento.
— Eu… Madrinha do casamento de vocês?
— Não será nada espetacular e também não será agora… Mas seria bom ter você do nosso lado. — ele sorriu.
Será que Nick não percebia que suas palavras estavam me matando?
— Eu… Eu…
Nick continuou me olhando enquanto eu buscava o impossível. Que tudo não passasse de um sonho e que eu acordasse em breve.
— Eu adoraria…
Ouvi-me falando antes que pudesse pensar em negar.
