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Lia

Minha vida estava um caos completo. Abandonada pelo noivo, grávida, sem o apoio dos pai e dividindo um apartamento que não sabia como iria pagar a minha parte do aluguel.

Não corri atrás de estágio, porque projetei minha vida em torno de Eduardo.

Como fui idiota.

Com um bebê a caminho minhas economias não durariam por muito tempo.

Mas eu precisava encarar tudo de frente, enxugar minhas lágrimas e voltar para a faculdade.

Acordei com o burburinho vindo da sala. Nem me liguei em me arrumar para sair do quarto. Adorava ficar com meus pés descalços, carregava essa mania desde criança.

Quando lhe perguntei quem era, Ana tentou esconder fechando um pouco a porta. Aproximei-me e quase não acreditei quando vi quem estava do outro lado.

— Gabriel.

Poderia passar cem anos e ainda assim eu o reconheceria. Seus cachos castanhos deram lugar para um corte moderno. Estavam desalinhados, mas não desleixados. Seu corpo magricelo havia ganhado vários músculos, ficando bem visíveis em sua camisa polo azul-marinho.

Os olhos esverdeados ainda eram expressivos, como se não conseguissem acreditar que estava me vendo.

— Oi Lia, há quanto tempo — tentou sorrir.

— Quatro anos.

— Exatamente.

— Eu estava dizendo-lhe que você estava descansando — Ana cortou o nosso contato.

— Não quis atrapalhar... Só queria saber como você estava.

— Pode ver com seus próprios olhos o estado que o seu irmão a deixou.

— Ana...

— O quê? Estou falando alguma mentira?

Eu compreendia a raiva que Ana estava sentindo, mas já acontecera e ela não podia fazer nada para mudar. Gabriel não tinha culpa.

— Está tudo bem Ana. Por que não deixa Gabriel entrar? — falei por fim.

Estava muito curiosa com sua visita surpresa. Mesmo contra sua vontade, Ana abriu a porta e deixou Gabriel passar. Apontei o sofá com formato de L para ele poder sentar e fiz o mesmo.

Ficamos em um silêncio constrangedor até eu iniciar uma conversa.

— E então, o que te trouxe de volta ao Rio depois de quatro anos?

— Você... Quer dizer, essa história do Eduardo resolver largar tudo e sumir... — ele parecia constrangido.

— Há... — foi apenas o que consegui falar.

— Você sabe onde seu irmão está? — Ana quis saber.

— Não. Fui pego de surpresa duas vezes em um ano. Primeiro com o casamento, depois a ligação dos advogados avisando que eu precisava voltar com urgência para o Brasil.

— Então ele não te ligou? — eu quis saber.

— Nós não temos contato direto a quatro anos. Tudo é através de e-mail — Gabriel não precisou falar o motivo porque eu já sabia.

Há quatro anos, Gabriel contou aos meus pais que eu e Eduardo estávamos namorando. Acabamos brigando feio e dois dias depois, ele embarcou para o Japão e nunca mais voltamos a ter contato.

Eduardo nunca me falou sobre o que aconteceu entre eles naquele dia. Depois disso a amizade deles nunca mais foi a mesma. Mas nunca imaginei que os dois não se falavam mais.

— Quando chegou?

— Ontem. Costa me levou do aeroporto direto para o escritório. Havia várias pendências deixadas pelo meu irmão, coisas que eu não faço ideia de como resolver. Depois fui para a casa dos meus pais ver meus avós e hoje estou aqui.

— E pretende ficar por muito tempo? — perguntei.

— O suficiente para encontrar Eduardo e voltar para o Japão.

— Parece que criou laços por lá — falei sorrindo.

— Faço parte de uma empresa de tecnologia. Por sorte, temos uma filial aqui e poderei continuar com meu trabalho.

— Sempre tive certeza de que trabalharia com algo assim.

— E você, como está indo?

— Me formo em seis meses.

— Arquitetura?

Ele ainda se lembrava do meu sonho de ser arquiteta.

— Não, publicidade — falei sem graça.

Eu havia mudado de curso no segundo semestre. Eduardo disse que publicidade era mais a minha cara. Havia tantas coisas que deixei de lado por causa dele e agora teria que seguir sozinha. Mas eu também era apaixonada pela publicidade.

— Sei...

Ficamos mais alguns segundos em silêncio, até Ana se levantar.

— Vou preparar um café — disse se encaminhando para a cozinha.

— Você não mudou nada, quer dizer, está ainda mais linda... — ele disse quando minha amiga sumiu das nossas vistas.

— Já tive dias. Devo estar parecendo uma assombração — falei puxando meus cabelos e prendendo em um coque no alto da cabeça.

— Não, não está. Ainda tem a mania de andar descalça — disse olhando para os meus pés.

Sorri para ele.

— Tem manias que não dá para deixar de lado.

— Você está bem? — perguntou depois de um momento de silêncio.

— Estou — menti.

— Sei que não está. Posso ver pelo seu olhar.

Juntei minhas mãos ao corpo e mexi nervosamente.

— Foram dias difíceis, mas estou me recuperando... — falei por fim.

— Sei que ainda deve estar magoada comigo pelo que fiz, mas estou aqui para dizer que pode contar comigo.

Gabriel não havia mudado o seu jeito de se preocupar comigo, mesmo após tanto tempo.

— Éramos adolescentes e aquilo ficou no passado. Não guardo mais mágoas, se guardasse não teria enviado o convite do meu casamento.

— Você me enviou? — ele pareceu surpreso — supus que fora Eduardo.

— Ele deixou essa parte por minha conta. Eu queria você aqui.

— Por que não me procurou esses anos todos?

— Eduardo disse que você não queria ter contato comigo, então esperei sua raiva passar e você me procurar.

— Meu irmão deixou bem claro que você não queria mais falar comigo.

— Outra coisa que Eduardo deixou de me contar. Parece que escapei de casar com um estranho.

— Sei que o que você menos quer nesse momento é ter contato com alguém da minha família, mas estou aqui por você.

— Obrigada, mas nesse momento eu quero ficar um pouco sozinha. Tenho muito o que pensar, o que planejar...

— Tudo bem, eu entendo. Vou deixar meu número e você pode me ligar a qualquer momento. Tem algum papel onde eu possa anotar?

Peguei um comprovante de mercado solto em cima da mesa de centro e uma caneta que estava na cestinha.

— O café chegou — disse Ana voltando para a sala.

— Você não quer ficar para o jantar? — perguntei enquanto minha amiga servia nossas xícaras.

Ana me encarou por longos segundos.

— Não tem nada pronto, mas podemos pedir algo — falei antes que minha amiga falasse algo — porque você não liga para o Beto e convida ele também?

— Não quero incomodar... — disse Gabriel apreensivo.

— Não vai.

♠

Passamos uma noite muito agradável. Gabriel nos contou como era sua vida no Japão, nas confusões em que se meteu até se acostumar com a cultura. Descobri mais sobre o seu trabalho e fiquei orgulhosa do profissional que ele havia se tornado.

Em vários momentos, Ana olhou em minha direção, acredito que ela queria que eu falasse sobre minha gravidez, mas não fiz isso. Pelo menos por enquanto, eu manteria esse segredo comigo.

No final quando, quando nos despedimos, Gabriel me passou também o endereço do seu apartamento, caso eu quisesse aparecer para uma visita.

Em tão pouco tempo, nós havíamos esquecido quatro anos de distância. Gabriel estava tão maduro, confiante, mesmo estando com apenas vinte e três anos. Suponho que morar longe da família foi o fator para isso acontecer.

Beto decidiu dormir no nosso apartamento. Então quando lavei a louça, deixei o casal conversando na sala e fui dormir.

Na manhã seguinte fui acordada pelo enjoo matinal. Mesmo assim me obriguei a me levantar, tomar banho e me preparar para voltar à faculdade. Não poderia mais faltar aula, além disso, precisava falar com meu orientador sobre meu TCC.

— Bom dia, conseguiu dormir?

— Melhor que ontem.

— Que bom! Fico feliz.

Ana serviu duas xícaras de café e me fez companhia na mesa.

— Por que você não falou da gravidez para o Gabriel?

— Ainda não estou pronta para isso.

— Eu sei que a decisão é só sua, mas acredito que seria uma boa notícia no meio desse caos todo.

— Eu vou falar na hora certa.

— A visita dele te fez bem.

— E você querendo expulsá-lo daqui.

— Porque eu julguei que ele viera em defesa do Eduardo.

Ana tomou um gole do seu café antes de voltar a falar.

— Ele está muito gato — disse sorrindo.

— Ana!

— Posso olhar o produto na prateleira, mas não quer dizer que eu vá comprar. Eu pegaria se estivesse solteira.

— Termina logo o seu café, preciso de uma carona.

— Aonde vai tão cedo?

— Faculdade. Não posso mais faltar. Preciso ver como dar prosseguimento com meu TCC.

— Você está tão... calma.

— Preciso estar. Já me aborreci bastante nessas últimas semanas. Também preciso ver quanto tenho na minha poupança e organizar meus gastos.

— Já falei que com isso não precisa se preocupar. Posso bancar as contas tranquilamente. Meus pais me dão mais dinheiro do que preciso.

— Eu sei que não precisa, mas não vou me sentir à vontade.

— Você é minha melhor amiga. Faria o mesmo no meu lugar.

— O que eu faria sem você? — perguntei sorrindo.

— Nunca saberemos.

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