Gabriel
No final da tarde, Manu havia encontrado um bom restaurante localizado em Ipanema, próximo à praia. Levaria Lia para assistir ao filme de sua escolha e depois seguiria para o restaurante. Já queria estar com meu carro, mas ele só estaria pronto na manhã seguinte, então pediria um carro de aplicativo.
Por volta do horário marcado, estacionei em frente ao prédio de Lia. Pedi para o motorista me esperar enquanto tocava o interfone. Lia desceu quase que no mesmo instante.
A primeira coisa que percebi foi o quanto ela estava linda, embora não estivesse toda produzida. Um vestido soltinho branco até os joelhos, salto alto mediano e cabelos escovados. Uma maquiagem suave apenas para ressaltar a sua beleza.
— Continua pontual — ela brincou ao passar pelo portão.
— Me conhece, odeio deixar as pessoas esperando.
— E como conheço. Andei pesquisando alguns filmes... Têm alguns de ação, você ainda gosta?
— É um grande vício que não consigo largar. Quando tinha algum tempo livre, sempre ia ao cinema.
— Então já está decidido, veremos filme de ação.
— Claro que não, eu te convidei. Você pode escolher o filme.
— Já escolhi, será de ação.
Lia era difícil mudar de opinião quando concretizava uma escolha. Quando chegamos ao cinema, comprei os ingressos, enquanto Lia pegava pipoca e refrigerante.
— O que houve com o refrigerante? Agora só te vejo tomando suco — falei quando me aproximei para pagar, mas Lia já tomara minha frente.
— Resolvi dar um tempo. Andei por muito tempo viciada em refrigerante e decidi aderi novas metas para esse ano.
O filme até que foi legal, mas na maior parte do tempo fiquei observando Lia. Ela fazia caretas engraçadas sempre que o personagem principal sofria alguma agressão.
Eu sentia falta de ficar esse tempo com ela e aproveitaria cada momento juntos. Queria recuperar o tempo que passamos longe.
— Foi um pouco violento, mas no final gostei — Lia disse quando saímos da sala.
— É claro que gostou. O agente acabou com uma gata no final do filme. O casal tinha muita química.
— E como tinha. Você viu aquelas cenas na praia?
— Tentei, mas a maior parte do tempo, minha atenção estava em você.
Peguei as mãos de Lia e beijei carinhosamente. Ela sorriu com meu gesto.
— Adorei nossa saída. Podemos fazer isso outro dia?
— Claro que podemos, mas nossa noite não acabou.
— Não? — perguntou erguendo as sobrancelhas.
— Fiz uma reserva para jantarmos.
— Fez? Onde?
— Ipanema. Se nós não nos apressarmos, perderemos nossa reserva.
— E agora que veio me falar, depois que enchi a barriga de pipoca e suco?
— Lia, você tem estômago de elefante, não tem um espaço aí para mais comida?
Ela riu.
Pedi um táxi e ficamos aguardando.
— Você tirou um tempinho do seu dia precioso para fazer uma reserva em um restaurante?
— Na verdade, quem efetuou isso foi a Manu.
— Você já está escravizando sua assistente?
— Pedi mais como um favor do que como uma ordem — falei enquanto abria a porta do carro para ela entrar.
— Seu novo emprego também dá direito a motorista particular?
— Não. Seria muito abuso da minha parte.
Lia riu alto e eu lhe acompanhei.
— Tenho um carro, mas como fiquei alguns anos sem usá-lo, enviei para a oficina. Deve ficar pronto amanhã.
— E qual a marca do seu carro?
— Um BMW.
— Uau! Rico, com dois empregos e uma BMW. Agora você é um CEO...
— CEO? — enruguei minha testa — isso é alguma categoria que desconheço?
Lia revirou os olhos enquanto ria. Dei a volta pelo carro e sentei ao seu lado.
— Já vi que você não lê livros de romances. CEO são personagens multimilionários, donos de grandes empresas, carros luxuosos e mulheres ao seu dispor.
— Você e sua obsessão por esses romances de amores previsíveis. Sabemos que eles sempre têm um final feliz.
— Nem todos.
— Prove. Fale-me um livro em que esse tal CEO termina solitário no final.
— Vou te provar — disse colocando a mão no queixo.
— Se conseguir provar, te dou a coleção completa do Harry Potter.
Eu sabia que ela sempre quis ter todos os livros da série. Assisti os filmes com ela e até chegamos a brigar em algumas vezes porque Lia é alguém que adora dar opiniões sobre filmes.
— Chegou um pouco tarde, já tenho todos os livros.
— Conseguiu comprar ou convenceu seus pais a te darem?
— Você sabe tanto quanto eu que o único livro que eles me dariam era a bíblia — sua voz soou um pouco triste ao mencionar seus pais.
Talvez eles não tivessem recebido a notícia do fim do casamento muito bem. Nos breves momentos em que estive com eles, sempre me assustaram, principalmente seu pai com sua fé exagerada.
— Foi um presente do seu irmão no meu vigésimo aniversário.
— Aposto que ele te deu muitos presentes — falei com uma ponta de ciúme.
— Alguns. Para Eduardo, presentes sempre eram um pedido de desculpa para nossas brigas.
— E vocês brigavam muito?
— Às vezes. Podemos mudar de assunto? Não quero estragar a nossa noite.
— Claro. Desculpe-me.
— Está tudo bem — ela disse.
Mas não estava.
Querendo ou não, ela ainda amava o meu irmão, embora estivesse fazendo um bom trabalho em esconder seus sentimentos.
— Para aonde vamos, tem batata frita?
Lia sempre conseguia mudar de assunto, como se não tivesse sido afetada minutos atrás.
— Duvido muito...
— Pelo amor de Deus, não me diga que vai me levar a um restaurante de comida mexicana...
Foi minha vez de rir.
— Nunca faria isso. Ainda me lembro de como você ficou depois que comeu aquela comida apimentada.
— Lembro-me de pernoitar no hospital, com meu corpo cheio de manchas — disse rindo — você quase me matou.
— Observe pelo lado bom.
— Teve um lado bom?
— Sempre tem um lado bom. Descobrimos que você é alérgica à comida mexicana.
— Nisso você tem razão.
Fomos rindo boa tarde do caminho. Quando estacionamos, Lia estava enxugando as lágrimas.
— Droga, acredito que borrei minha maquiagem. Fazia tempo que não ria até chorar.
— Deixe-me dar uma olhada — falei segurando seu rosto.
Limpei algumas lágrimas e aproveitei para tocar sua pele. Que saudade de fazer isso.
Meu olhar desviou para seus lábios e a vontade de tocá-los foi quase insuportável. Com muita força de vontade, consegui me controlar.
Saí do carro e fui para o outro lado abrir a porta para Lia. Chegamos à recepção e anunciei meu nome. A princípio pensei ser algo bem sofisticado devido à decoração.
Lustres imensos iluminando o ambiente, equipe de garçons atenciosos desde a nossa entrada até onde estava reservada nossa mesa. Mas quando olhamos o cardápio, havia uma variedade de pratos e sobremesas.
— Não tem batata frita, mas tem chips — disse Lia com seus olhos brilhando.
Olhei com mais atenção ao cardápio e vi que era uma das opções de entradas.
— Posso falar então para Manu que você gostou do restaurante e que sua sugestão foi aprovada?
— Aprovadíssima! Por que nunca vim aqui antes?
— Não sei, mas podemos vir sempre que quiser.
— Um lugar como esse só posso vir uma vez na vida, outra na morte.
— Por quê? — perguntei sem entender.
— Já observou o preço dos pratos?
— Você não precisa se preocupar com isso. O convite é por minha conta.
— Nem pensar que deixarei você pagar a conta sozinho.
— Eu é que não deixarei você me ajudar com a conta. Que espécie de homem eu seria ao deixar isso acontecer?
— Você não perderá sua masculinidade por causa disso — ela riu.
Lia tinha uma personalidade que era difícil disputar com ela quando decidia.
— Ok, não discutiremos.
Um garçom aparentando ter uns quarenta anos aproximou-se da nossa mesa. Lia acabou ficando com seu pedido de chips e eu pedi o mesmo apenas para acompanhá-la.
Quando nossos pedidos chegaram, Lia pegou uma grande porção e colocou na boca. Mas segundos depois, ela se levantou, perguntando ao garçom onde ficava o banheiro.
Já era a segunda vez no mesmo dia que isso acontecia. Dessa vez eu não deixaria passar.
Ou Lia me contaria o que estava acontecendo ou eu a levaria ao hospital e descobriria por minha conta.
Quando ela voltou para a mesa, estava pálida com uma folha de papel.
— Me desculpe. Acredito que...
— Comeu algo que não te fez bem. Adivinhei?
— É...
— Está mentindo. Vai me falar agora o que está acontecendo ou terei que te forçar a fazer isso?
— Gabriel...
— Sem enrolação dessa vez. A verdade, por favor.
Lia se mexeu desconfortavelmente na sua cadeira. Ajeitou os cabelos, algo que fazia sempre quando era colocada contra a parede.
— Bem...
— Ei, sou eu, Gabriel — falei pousando minha mão sobre as suas — seja lá o que estiver acontecendo, estou aqui agora.
— Lembra quando você perguntou se Eduardo havia me dados muitos presentes?
— Sim, lembro. Você disse que ele deu alguns.
— Bem, esse presente, posso dizer que foi o maior deles e sem direito à devolução.
— Do que você está falando?
— Estou grávida — ela disse como se estivesse se desculpando.
Estou grávida.
A frase ficou passeando pela minha cabeça como se fosse uma montanha-russa.
