Capítulo 3
Parecia que o tempo se arrastava, cinco minutos pareciam uma hora, uma hora pareciam dois dias. Após uma aula de biologia maçante, finalmente eu estava livre. Não perdi tempo, arrumei meus livros dentro da bolsa e sai da sala apressada, não queria conversar, nem brincar com ninguém, tudo o que eu queria era minha casa e minha cama.
— Apressada, nanica? — Perguntou Clay, surgindo do nada ao meu lado no corredor, usando um dos apelidos “carinhosos” que havia me dado.
— Preciso da minha cama. — Resmunguei, continuando a caminhar e saindo do prédio escolar ao lado do meu amigo.
Seguimos sem pausas para o estacionamento e logo eu estava me jogando dentro do Jeep, me acomodando no banco do carona e esticando as pernas, apoiando os pés no painel. Aquilo irritava Clay na maior parte das vezes, mas eu nunca deixava essa mania de lado. Principalmente por que, por eu ser pequena, minhas pernas se encaixavam perfeitamente ali, tornando a posição muito confortável.
— Vamos logo, sua irmã deve estar à beira de um ataque cardíaco. — Falou Clay, ligando o carro, pisando no acelerador e saindo do estacionamento, deixando nossa escola para trás. — Vamos enfrentar a fera.
Não demorou mais do que alguns minutos para que chegássemos a Claremonth High School, ou CHS, como eu gostava de chamar. Encontramos uma Evangeline extremamente irritada e emburrada de pé no meio fio, Clay parou o carro ao lado dela, destravando as portas. Eva entrou no carro ainda emburrada, cruzando os braços e nos fulminando com o olhar.
— Desculpa, Eva. — Clay falou com voz manhosa, fazendo minha irmã revirar os olhos, mas eu sabia que ela já estava com o coração amolecido.
Clay olhou para mim e deu um risinho de canto discreto, ligando o carro novamente e acelerando, seguindo o trajeto para minha casa, onde provavelmente jantaríamos juntos.
De novo.
Qualquer um poderia enxergar a queda que Evangeline tinha por Clay, queda esta que hoje em dia mais parecia um abismo, e perdurava desde seus treze anos de idade. Hoje, com quinze anos, Eva ainda não tinha coragem de declarar seus sentimentos. Eu não a culpava por isso, Clay tinha dezessete anos e era meu melhor amigo, praticamente a viu crescer e eu não sabia bem se havia reciprocidade.
O caminho até minha casa foi completamente silencioso.
Clay estava com os olhos na estrada, ele odiava ser incomodado enquanto dirigia, tinha muito medo de perder a atenção e acabar provocando um acidente. Eva estava com seus fones de ouvido, cantarolando uma música qualquer e eu estava num estado meio adormecido. Quando finalmente o estacionou na frente da minha casa, tomei coragem para me levantar do banco, pegando minha bolsa e saindo do carro. Arrastei-me para dentro, largando minha mochila na sala mesmo e, após olhar para os lados e chamar por minha mãe algumas vezes, constatei que a casa estava vazia. Caminhei até a cozinha e encontrei a mesa posta, as comidas categoricamente embaladas e dispostas no centro, como só dona Victória faria. Encontrei um pequeno bilhete colado no plástico filme que embalava uma bela travessa de macarrão.
“Precisei sair urgentemente, tenho uma palestra de última hora para esta tarde e provavelmente chegarei só depois das nove. Comam direito e não façam besteira.
Mamãe.”
Não sentia fome alguma, as segundas eram sempre péssimas para mim e eu sempre acabava cansada demais. Por isso, somente subi as escadas, segui para meu quarto, abrindo a porta e tirando minha camiseta, minha calça e pegando minha toalha, precisava de um bom banho antes de dormir um pouco.
Não demorou muito e eu logo estava na cama, havia fechado todas as cortinas, o quarto estava frio e escurinho, o clima perfeito para hibernar um pouco. Alguns instantes antes de adormecer de vez, senti um peso ao meu lado na cama, abri só um pouquinho os olhos e vi Clay deitado ao meu lado, já com os olhos fechados. Os cabelos dele estavam meio úmidos e ele vestia somente uma bermuda cheia de desenhos de doces. Depois disso eu apaguei.
Quando acordei já era noite, olhei para o relógio que estava sobre o criado ao lado da minha cama e vi que já passava das sete. As pernas de Clay estavam em cima de mim e ele babava, abraçado a um travesseiro, ressonando bem baixo. Levantei com cuidado, bocejando e esticando o corpo. Caminhei silenciosamente para fora do quarto, descendo as escadas e parando perto da porta dos fundos, vendo uma cena que com certeza merecia ser apreciada e que me fez sorrir.
Meus pais dançavam juntos, bem próximos, olhando nos olhos um do outro e com largos sorrisos nos lábios. Ambos se moviam com delicadeza e leveza, seus olhares transmitiam o mesmo amor que sempre vi em seus rostos. Eles sempre pareciam um casal de adolescentes apaixonados, só que com quarenta anos de diferença e bem mais bonitos.
Mamãe e papai eram a prova viva de que o amor atravessava o tempo e as barreiras, se ambas as partes estivessem dispostas a lutar por isso. Eles não eram iguais, tinham pensamentos divergentes e manias que irritavam um ao outro constantemente, mas sempre estavam dispostos a melhorar e aprender, tanto por si mesmos, quanto pelo seu casamento e pelo amor que cultivavam todos os dias.
Dona Victoria tinha 16 anos quando conheceu o senhor Paul. Segundo ela, não foi amor à primeira vista e sim algo que foi construído, pedra por pedra, se tornando um belo castelo, que vez ou outra precisava de reparos. Meu pai insistia em dizer que a amou desde o primeiro dia em que a viu. Ele sempre reclama sobre como foi difícil atrair sua atenção, mas também faz questão de repetir várias e várias vezes que todas as tentativas valeram a pena. Olhei novamente para o jardim, eles estavam no meio de um beijo, cheio de amor e carinho, mas também intenso e muito feroz. Fiz uma careta por alguns instantes e me afastei, fechando as cortinas e saindo dali na ponta dos pés.
Vê-los tão apaixonados só me fez pensar em como eram maravilhosos, não só como pais, mas como pessoas. Lembro-me da primeira vez que disse que queria que meus pais me ensinassem a ajudar as pessoas como eles faziam, eu tinha somente oito anos. Meu pai caiu no choro e minha mãe abriu um grande sorriso, desde então ambos me ensinam a tentar compreender até as pessoas mais complicadas. Quando fiz quatorze anos comecei a visitar mais o trabalho da minha mãe, já que antes eu era muito nova para “aprender sobre as obscenidades que a senhora Victoria chamava de profissão” como ela mesma dizia. Olhando para mim hoje percebo que sou a mistura perfeita de Victoria e Paul, aprendi a compreender as pessoas com meus pais e me orgulho muito disso.
O amor deles me inspira todos os dias.
❦
Acordei exausta, como todos os dias.
Eva batia na porta do meu quarto insistentemente. Para que comprar um despertador se eu tinha uma irmã tão pontual? Não havia necessidade nenhuma. Respirei pesadamente e me virei, observando meu melhor amigo que dormia pesadamente ao meu lado na cama. Clay babava num dos meus travesseiros e vestia uma das bermudas ridículas que sempre ficavam no meu guarda roupas, à espera de ocasiões como aquelas. Me apoiei num dos cotovelos e o cutuquei com a mão livre, empurrando seu rosto.
— Clay Acorda! — Falei, alto o suficiente para fazê-lo resmungar, mas nada além disso. — Acorda, vamos nos atrasar!
Dessa vez o empurrei com mais força, jogando-o para a ponta da grande cama e, quando o moreno tentou se erguer, perdeu o equilíbrio, caindo da cama com um baque surdo. Ouvi alguns xingamentos antes de vê-lo se levantar e me encarar com uma expressão nada amigável.
— Você é uma estraga prazeres Aura! — Falou, passando a destra nos cabelos e bocejando em seguida, coçando os olhos antes de caminhar até o armário. — Não podia me acordar de forma mais delicada?
Clay não me deu tempo para responder, pegou a toalha e algumas roupas, se trancando no banheiro e ficando no local por pelo menos quinze minutos. Quando ele saiu estava mais apresentável, os fios castanhos estavam úmidos e, apesar de mais arrumado, ainda estava com o rosto sonolento.
— Anda logo ou sua irmã vai nos matar. — Resmungou, saindo do quarto e me deixando ali, ainda deitada e sem a menor vontade de me levantar.
Que o dia comece.
Não demorou para que estivéssemos novamente reunidos na mesa do café, eu ainda estava sonolenta, mas isso logo mudou após um café quente e forte. Minutos depois estávamos a caminho da escola, Eva estava quieta hoje, estranhamente quieta, mas eu não percebi isso até que ela saiu sem se despedir. Minha irmã entrou na escola sem sequer falar com as colegas que a esperavam na porta, mas neste momento já era tarde, teria que esperar para descobrir o que estava acontecendo com ela quando viesse buscá-la.
Quando chegamos a escola, Clay foi levado para longe de mim novamente e eu segui o mais rápido que consegui para dentro do prédio de salas, passando pela mesma rotina matinal. Porém, havia algo diferente hoje. As garotas estavam divididas em grupinhos, cochichos e sorrisinhos estavam por todo lado e, quando eu pisei os pés no corredor dos armários, as meninas me encararam por alguns instantes antes de desfazerem suas rodinhas e correrem para meu armário. Elas pareciam animadas, animadas demais.
— Você já o viu, Rora? — Perguntou uma das meninas, não me recordava de seu nome.
— Ele é tão lindo. — Falaram umas três, num coro digno do grupo de música da escola.
— Eu não faço ideia do que estão falando meninas. — Admito que estava e divertindo com aquele alvoroço todo, não sabia quem havia provocado toda aquela agitação, ainda mais tão perto assim do baile. – Não me digam que estamos recebendo a visita do Ian Somerhalder e eu não fiquei sabendo!
A maior parte das meninas sorriu, era bom ter um momento tão descontraído aquela manhã. Porém, lentamente, os sorrisos foram morrendo e dando lugar a expressões bobas, até que Julliet, uma das cheerlanders cutucou meu ombro, apontando para minhas costas. Me virei lentamente e entendi as expressões bobas que estava julgando instantes atrás.
Meus olhos estavam grudados numa réplica perfeita e adolescente de Eros, deus grego da paixão. Os olhos castanhos que chegavam a um tom de mel, lábios bem desenhados e cheios esbanjando um sorriso banhado por malicia, uma pele caramelada e cabelos negros. O desconhecido olhava para o grupo de garotas como se fossem uma grande e divertida piada.
— Bom dia meninas, alguém pode me ajudar a encontrar meu armário? — Perguntou ele, seus olhos estavam percorrendo os rostos de todas, um por um e seu tom demonstrava que ele sabia bem o efeito que causava.
Senti um leve empurrão em minhas costas, que foi o suficiente para me jogar alguns passos para frente e me fazer quase cair nos braços do garoto. Eu me senti na quinta série.
— Temos uma voluntária? — Perguntou o Eros adolescente, com um ar zombeteiro.
Naquele momento a beleza dele não me importou muito, o baque de encontrá-lo passou e eu logo percebi que ele me lembrava alguém, uma pessoa que eu lutava para esquecer todos os dias. Por isso, automaticamente minha expressão se fechou e eu uni as sobrancelhas, suspirando pesadamente.
— Infelizmente. — Murmurei, o fazendo erguer ambas as sobrancelhas, parecendo surpreso com minha reação. — Vem e, por favor, tira esse sorrisinho da cara antes que eu te deixe plantado aqui.
Os armários eram organizados por ordem alfabética. No térreo ficavam os armários do A ao F e os demais no andar de cima. Ouvia os passos dele acompanhando os meus, mas não o olhei, apesar de irritante, ele ainda era muito bonito.
— Qual seu nome? — Perguntei, voltando meus olhos para ele, que estava com a mesma expressão irritantemente bonita de quem estava zombando da minha cara. — Para acharmos seu armário.
— Dante.
Era estranho como nomes tinham poder. Dante era um nome forte, poderoso e parecia extremamente sexy saindo dos lábios carnudos. Me lembrou do livro “O inferno de Dante”, aquele garoto com certeza poderia fazer um inferno na vida de alguém com aquele sorriso.
— Ótimo. — Mudei de direção e, chegando a um corredor perto das escadas que levavam para o andar de cima, olhei para as delicadas placas metálicas que ficavam sob os armários.
Essas placas indicavam a quem pertenciam os armários, portanto não foi difícil encontrar o dele. Na verdade acho que ele poderia o fazer sozinho, provavelmente só pediu ajuda para causar mais inquietação. Agradeci mentalmente por ter finalizado a tarefa, que praticamente havia sido imposta para mim. Parei de frente para o armário e o olhei uma vez mais, indicando a placa e dando um breve sorriso, sem muito humor.
— Aqui está. — Apontei para o armário, pronta para dar as costas e seguir para minha sala, mas antes que eu me afastasse o suficiente senti dedos quentes e firmes se agarrarem ao meu braço, me fazendo unir as sobrancelhas, confusa com a aproximação repentina. — O que você...
— Não acha injusto sair sem se apresentar? Onde está a receptividade que tanto falam dos cidadãos do estado de Minnesota? – Seu tom era um pouco sarcástico e ele parecia se divertir com minha expressão de confusão – Qual seu nome?
— Aurora. — Falei, após alguns segundos digerindo aquela situação estranha.
Então, sem esperar por uma resposta, puxei meu braço e virei as costas, caminhando em direção ao meu próprio armário.
Eu, definitivamente, ficaria bem longe desse Dante.
***
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