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Capítulo 1 — Sob os Portões Dourados

camadas transparentes de seda.

Era bonito.

Bonito demais.

Perigoso demais.

— Ainda dá tempo de desistir — sussurrou Samira, sentada ao lado dela.

Layla desviou os olhos da janela.

— Depois de você quase implorar para eu aceitar esse trabalho?

Samira torceu a boca, inquieta. Era alguns anos mais velha, dona de um pequeno estúdio de dança onde Layla dava aulas para mulheres da cidade. Tinha contatos demais, falava rápido demais e escondia medo atrás de piadas ruins. Naquela noite, porém, não estava brincando.

— Eu não sabia que seria no palácio principal dos Al-Mansour. Disseram apenas que era uma recepção privada.

Layla arqueou uma sobrancelha.

— Recepção privada de quem?

Samira hesitou.

E foi essa hesitação que confirmou o pressentimento ruim.

— De Sheikh Zayn Al-Mansour.

O nome caiu entre as duas como uma lâmina.

Layla já tinha ouvido aquele nome tantas vezes que ele parecia pertencer mais a uma lenda do que a um homem real. Zayn Al-Mansour. Bilionário. Herdeiro de uma dinastia antiga. Dono de hotéis em Dubai, Doha, Paris, Londres. Acionista de companhias de petróleo, joalherias e linhas aéreas. Um homem cuja assinatura podia erguer prédios ou destruir famílias. Um sheikh moderno, poderoso, frio, temido.

E casado.

Não uma vez.

Quatro.

Layla respirou devagar.

— Você esqueceu de mencionar esse detalhe.

— Eu soube no caminho.

— Mentira.

Samira apertou os lábios, culpada.

— Soube ontem.

Layla fechou os olhos por um segundo. A vontade de descer do carro, arrancar os brincos e voltar para casa foi quase física.

— Samira...

— O pagamento é três vezes maior que o normal — a amiga interrompeu, quase suplicante. — Três vezes, Layla. Você disse que precisava quitar o aluguel do estúdio. Disse que sua mãe...

— Não use minha mãe.

A frase saiu baixa, mas afiada.

Samira se calou.

Layla olhou novamente para os portões. Dois guardas vestidos de preto se aproximavam do carro. Atrás deles, o palácio se erguia como uma miragem impossível no meio da noite: cúpulas claras iluminadas por refletores dourados, arcos altos, colunas de mármore, jardins internos entrevistos entre muros esculpidos. Havia fontes, tamareiras, lanternas suspensas, tapetes vermelhos descendo as escadarias como rios de sangue.

Era belo.

E era uma prisão disfarçada de paraíso.

Layla sentiu o peso do próprio orgulho. O dinheiro era necessário. Mais do que ela queria admitir. A doença da mãe consumia as economias, e o estúdio atrasara dois meses de aluguel. Dançar não era vergonha. Nunca fora. Sua avó dançara em casamentos, sua mãe dançara em festas de família, e Layla transformara aquela arte em sustento.

O problema não era a dança.

O problema eram os homens que confundiam arte com posse.

E um homem como Zayn Al-Mansour provavelmente nunca ouvira a palavra não sem transformá-la em desafio.

— Você vai entrar comigo — Layla disse.

Samira arregalou os olhos.

— Eu? Mas eu só vim para acompanhar.

— Então acompanhe.

— Layla...

— Se for perigoso demais para você entrar, é perigoso demais para mim dançar.

A amiga soltou o ar, derrotada.

— Você é teimosa como uma cabra.

— E você é uma péssima mentirosa.

Um guarda abriu a porta. O ar quente da noite entrou no carro, trazendo consigo o perfume de oud, rosas e água corrente.

Layla saiu primeiro.

O som dos pequenos pingentes de ouro em sua cintura denunciou seu movimento. O guarda olhou para ela apenas por uma fração de segundo a mais do que deveria, mas logo baixou os olhos, treinado demais para demonstrar curiosidade.

— Senhorita Haddad — disse ele em árabe formal. — Estão aguardando sua apresentação no grande salão.

Layla ergueu o queixo.

— Minha assistente entra comigo.

O guarda olhou para Samira.

— O nome dela não está na lista.

— Então coloque.

Samira fez um ruído baixo de pânico.

O homem pareceu não gostar. Guardas de palácio não estavam acostumados a receber ordens de uma dançarina. Mas Layla não desviou o olhar. Havia aprendido com a vida que, se uma mulher demonstrasse medo no primeiro minuto, passaria o resto da noite tentando recuperar o respeito perdido.

O guarda tocou o comunicador preso à orelha, murmurou algo e aguardou resposta.

Layla ouviu apenas uma palavra.

— Permita.

O guarda inclinou a cabeça.

— Podem entrar.

Samira se aproximou de Layla enquanto subiam os degraus.

— Você vai nos matar.

— Ainda não. Preciso receber primeiro.

As portas do palácio se abriram.

E Layla entrou em outro mundo.

O interior era ainda mais grandioso do que a fachada prometia. O teto do hall principal era tão alto que as vozes subiam e desapareciam entre arabescos dourados. Lustres de cristal pendiam como cachos de gelo sobre tapetes persas. Paredes revestidas em mosaicos azuis e dourados refletiam a luz das lanternas. O som de água correndo vinha de fontes laterais, e o perfume de incenso era tão intenso que parecia uma presença viva.

Servos passavam em silêncio com bandejas de prata. Homens de túnicas impecáveis conversavam em pequenos grupos. Mulheres vestidas com abayas elegantes e joias discretas observavam tudo por trás de expressões treinadas.

Ninguém parecia relaxado.

Era uma festa sem alegria.

Layla percebeu isso imediatamente.

Havia música, comida, flores, convidados importantes. Mas por baixo de tudo corria uma tensão dura, política. Sorrisos medidos. Cumprimentos calculados. Olhares que avaliavam poder, alianças, vantagens.

Uma celebração? Talvez.

Uma negociação? Com certeza.

Samira tocou o braço dela.

— Layla.

— Eu vi.

No centro do salão, além dos convidados, havia uma espécie de área elevada, coberta por tapetes e almofadas. Era ali que os anfitriões ficavam. Layla reconheceu algumas figuras pela imprensa: ministros, primos da família real, empresários europeus.

E então viu as mulheres.

Quatro.

Sentadas em posições diferentes ao longo da área reservada, como se cada uma ocupasse um território próprio dentro do mesmo reino.

A primeira usava um vestido marfim bordado em pérolas, com postura tão perfeita que parecia esculpida. Era belíssima, de beleza controlada, olhos escuros e rosto altivo. Layla soube sem que ninguém dissesse: aquela era a primeira esposa. A mais antiga. A mais perigosa.

A segunda tinha sorriso suave e dedos cobertos de anéis. Conversava com duas mulheres ao lado, mas seus olhos se moviam pelo salão com atenção predatória.

A terceira parecia mais jovem, talvez pouco mais velha que Layla, com expressão entediada e lábios pintados de vermelho escuro. Girava uma taça de suco de romã entre os dedos como se desejasse quebrá-la.

A quarta era quase silenciosa. Vestia azul profundo e observava o chão, mas havia uma rigidez em seus ombros que dizia mais do que qualquer palavra.

As quatro esposas de Zayn Al-Mansour.

Quatro alianças.

Quatro histórias.

Quatro prisões.

Layla sentiu um desconforto difícil de nomear. Não era ciúme, claro. Ela nem conhecia o homem. Era algo mais próximo de indignação. Como um único homem podia ocupar tanto espaço na vida de tantas mulheres? Como podia ser cercado por quatro esposas e, ainda assim, todos no salão parecerem esperar que ele desejasse mais?

Então a música mudou.

Não foi uma mudança brusca. Apenas uma nota mais grave, um silêncio súbito nas conversas, uma reorganização quase invisível dos guardas.

Os convidados se voltaram para a escadaria principal.

Layla também.

E o viu.

Sheikh Zayn Al-Mansour descia os degraus sem pressa, como se o palácio, os convidados, o próprio ar lhe obedecessem.

Ele era mais alto do que Layla esperava. Vestia uma thobe branca impecável sob um bisht preto com bordados dourados nas bordas. O tecido realçava a largura dos ombros, a postura firme, o controle absoluto em cada movimento. A pele morena parecia dourada sob a luz dos lustres. A barba curta era perfeitamente aparada. Os cabelos escuros estavam cobertos pelo ghutra branco preso por um agal negro.

Mas foram os olhos que fizeram Layla esquecer por um segundo onde estava.

Escuros.

Friamente atentos.

Olhos de um homem que raramente precisava perguntar duas vezes. De alguém acostumado a calcular fraquezas antes mesmo de ouvir uma voz. Ele cumprimentou um convidado com inclinação mínima de cabeça, recebeu uma saudação de outro, tocou a mão de um velho conselheiro.

Nenhum gesto desperdiçado.

Nenhuma emoção revelada.

Aquele homem não entrava em um salão.

Ele tomava posse dele.

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